Faz algum tempo, demasiado, diga-se em abono da verdade, que aqui não escrevo nada. Tal, ao contrário do que se possa pensar, ou que alguns poderão afirmar num âmbito geográfico mais restrito, não decorre de me ter acobardado com as perseguições de que fui alvo, ou por ter desistido de lutar contra o que considero ser a gangrena que, de forma transversal, vai progressivamente, num movimento perpétuo, corroendo toda a moralidade, independentemente de o contexto ser o local, o nacional, ou mesmo o internacional.
Não me demitirei das minhas lutas, nem abandonarei os princípios que sempre me nortearam, porque, antes do mais, se impõe uma limpeza da imundice que vem infestando a sociedade portuguesa. Cá estou, como sempre, de vassoura em riste para ajudar a varrer a porcaria…
Não obstante a actualidade/oportunidade mediática de alguns dos assuntos que irei abordar ter já passado, a verdade é que, mesmo assim, se impõe uma reflexão. Começo pelo âmbito local.
I – O Efeito Axe
Estranhamente, ou talvez não, voltou a atmosfera a ser respirável em Riachos. Estranhamente, ou talvez não, deixaram de se fazer notar certos (alegados) nauseabundos odores, entretanto substituídos por essências e fragrâncias vinícolas.
Não querendo comemorar antes do tempo a verdade é que um conjunto de indícios parecem demonstrar que as múltiplas queixas, denúncias, exposições, etc.. por mim (e não só) apresentadas em inúmeras instituições estão a surtir efeito.
Os terríveis cheiros que infestavam Riachos, o típico odor a latrina (como alguém chegou a referir), poderá, assim o espero, pertencer ao passado. Ficou-me cara a brincadeira, mas a verdade é que, se hoje se pode inspirar em Riachos sem se ser prontamente agredido no olfacto e na garganta, o povo de Riachos deve-o à minha (não só, mas principalmente) luta contra os establishments industrial e político. Note-se que se me arrogo no direito de reclamar para mim os méritos da diminuição dos focos poluidores, especialmente os atmosféricos, não o faço com o intuito de reclamar alguma recompensa, ou algum crédito junto da população. A verdade é que voltar a poder respirar numa atmosfera livre de odores e partículas nocivas é para mim recompensa bastante e o único objectivo pelo qual, com um não negligenciável prejuízo – porque não disponho dos milhões em recursos e influência de outros -, me bati desde a primeira hora, socorrendo-me, apesar da dureza das batalhas e da determinação e poderio dos múltiplos oponentes, do mais importante de todos os expedientes – a Lei.
Acresce explicar que, também ao contrário do discurso que os diligentes cães de guarda desses mesmos establishments têm feito passar, não tive de pedir desculpas a ninguém, não fui condenado a pagar o que quer que fosse, não fiquei com o cadastro sujo (ao contrário da Vala das Cordas), e contrariamente ao que se pretendia, nem tampouco colaborei no pagamento de quaisquer custas judiciais. Deve o esclarecimento ser feito, como reposição da verdade e aclaramento da propaganda emitida. E, a verdade, para quem souber ler português é essa.
O essencial do teor do acordo alcançado em sede de tribunal (e não de julgamento, como erradamente se fez passar) incidiu no meu reconhecimento, por ser tal verdadeiro, que a “crítica aqui e ali acrimoniosa” presente no texto inicial poder, se mal interpretada, (ónus que impende sobre o leitor e não sobre o autor), susceptibilizar os visados pela mesma crítica, razão pela qual, verificando-se tal premissa, apresento aos visados as minhas desculpas. Em suma, e porque não posso legitimamente esperar que todos os leitores da publicidade paga saída nos jornais “O Almonda” e “O Riachense” possuam o discernimento e/ou instrução necessários para interpretar correctamente o sentido do texto publicado, o que o teor do acordo diz é: a crítica e as acusações por mim feitas podem, se o leitor as interpretar dessa forma, susceptibilizar os visados. Embora não fosse essa a minha intenção, reconheço que isso pode acontecer, porque nem todos os possíveis leitores são conhecedores do contexto (e nem todos o lêem de boa fé). Assim, se for esse o caso, isto é, de o leitor interpretar aquela minha reflexão como um ataque aos visados, não tendo sido essa a minha intenção, obviamente que terei de apresentar as necessárias desculpas. Tão simples quanto isso.
Porém, aos menos distraídos, e aos que forem capazes de pensar por si, deixo a seguinte pista, para que possam reflectir se tal se vos afigurar pertinente: Acaso o texto reproduzido nos mencionados jornais (isto é, o teor do acordo alcançado em Tribunal) contém alguma referência contestando a veracidade do meu texto inicial? Acaso foi produzido algum desmentido das acusações que então formulei? Pois é…
Se hoje podemos de novo respirar em Riachos, tal deve-se essencialmente às inúmeras diligências que desencadeei (na imprensa, regional e nacional, na Assembleia da República, nas associações ambientalistas, no Ministério Público, na Polícia Judiciária, no SEPNA, nas instâncias europeias, junto da Presidência da República, no Ministério do Ambiente, na Inspecção-Geral do Ambiente, na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, às mais de 1200 páginas de documentos administrativos que pedi – inclusive à Câmara Municipal de Torres Novas, entidade que apenas mos facultou após “convite” da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos, e que remeti à Procuradoria-Geral da República para que fossem investigadas inúmeras situações que carecem de investigação, etc.) e aos processos judiciais entretanto abertos no decurso dessas minhas exposições/queixas. Naturalmente que tais expedientes tiveram o seu custo: nas centenas de horas perdidas, na recolha, colecção, organização e análise do material coligido, porque não tenho à minha disposição gabinetes de propaganda e de consultadoria jurídica em quem delegar tais tarefas, nos contactos, telefónicos, postais – as dezenas de registos e AR’s ascenderam a uma verba importante – electrónicos, na cópia de documentos, etc.. Não obstante o atrás exposto, porque acredito ser justa a luta travada, os custos são de pequena monta quando comparados com os objectivos atingidos.
Valeu, por isso, o esforço, pelo resultado conseguido, contra o desejo de muitos…
E para que esta dinâmica se não perca, convido aliás, todos os riachenses interessados no seu bem-estar e num ambiente de qualidade a exigirem à Câmara Municipal de Torres Novas que lhes forneça toda a documentação administrativa existente na CMTN relativa à ETAR de Riachos. A Lei de Acesso aos Documentos Administrativos confere-nos esse direito. No caso de resposta negativa uma queixa à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos deverá ajudar a desbloquear a situação. E continuem, exigindo a despoluição da Vala das Cordas, do Rio Almonda e da Reserva do Paul do Boquilobo.
Resta por último apelar a todos os riachenses para que nunca mais deixem que organismos públicos e/ou corporações privadas se apoderem de um dos nossos direitos mais fundamentais: aquele que contempla o direito a um ambiente saudável e de qualidade. Por mim, declaro-me de consciência tranquila. Fiz o que me permitiram os meus limitados recursos e, não posso estar mais satisfeito com os resultados. Assim, outros fizessem o mesmo.
Quando em 2009 forem colocar o vosso voto na urna para elegerem os representantes locais, não esqueçam de inspirar uma boa golfada de ar, finalmente, menos poluído.
II – “De manhã é bom é na caminha!”
Nunca como antes as palavras proferidas por um desportista desencadearam tão acesas discussões e reacções quanto as do atleta do Sporting, Marco Fortes.
De todo o lado os arautos do costume esgrimiam argumentos quanto à falta de profissionalismo dos nossos desportistas, à ausência de cultura vencedora, à inexistência de disciplina e exigência, rigor e constante superação, ao desrespeito que era para os portugueses que tanto tinham investido na presença em Pequim, as prestações e os desempenhos medíocres dos seus representantes.
E, no meio de toda esta tempestade as palavras, menos felizes, deve reconhecer-se, de alguns dos nossos atletas em Pequim. Terão razão os responsáveis portugueses e o povo para tão vis ataques? Em minha opinião, não!
Primeiro: a cultura portuguesa encerra em si uma das mais interessantes idiossincrasias que por certo definirão um povo: a velocidade com que se criam expectativas irrealistas e com que, ao primeiro revés, se passa da euforia desmedida à disforia irracional, culpando amiudemente os outros. A culpa, quando existe, é sempre dos outros, os nossos são sempre os melhores até perderem, porque, depois de perderem, são sempre uma nódoa, indignos da representação do país, uma vergonha para a nação, etc.. Este espírito conduz a um outro aspecto.
Segundo: para os portugueses, o papel reservado aos outros é o de serem os observadores participantes da supremacia lusa. Aos outros cabe engrandecer as nossas vitórias e conquistas. Os outros nunca estão em competição connosco, porque, à partida somos os melhores. Os outros não estão lá a trabalhar para os mesmos objectivos. Por isso é uma chatice quando nos complicam e estragam uma vitória que tínhamos certa.
Terceiro: outra das características do sentir luso é o facto de nunca se ter em conta a dimensão do país, a dimensão da população, a dimensão do PIB, a dimensão do território. O português (re)vive um torpe e suicida sebastianismo do glorioso e magnífico seiscentismo, esquecendo que a água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Em suma, o português é incapaz de perceber a mera impossibilidade probabilística de um país subdesenvolvido, social, cultural e economicamente, de apenas 10 milhões de habitantes, gerar uma elite de atletas capazes de lutar pelo título em todos os desportos: futebol, hóquei, andebol, atletismo, vela, judo, tiro, etc.… Há que explicar aos portugueses, que somos um país pequeno, que podemos ter um grande especialista em todos os desportos, mas que não só os outros também trabalham para o mesmo objectivo, como de igual modo, todos têm direito a dias menos bons, todos têm direito a errar. A diferença é que os erros e os dias maus dos nossos atletas são escalpelizados de forma mais intensa do que idênticas situações de um português comum. Nos oitavos de final de uma prova qualquer dos Jogos Olímpicos reparei que existiam 4 americanas, 4 jamaicanas, e por aí diante… Todas favoritas. Umas, mais que outras, mas todas favoritas. Se uma errar, existe outra. Se uma tiver um dia mau, existe outra. Porém, a Naide Gomes é apenas uma, o Marco Fortes é apenas um, o Francis Obikwelu é apenas um, o Gustavo Lima é apenas um, a Telma Monteiro é apenas uma. O Cristiano Ronaldo não joga por onze e a Vanessa Fernandes teve um bom ano. Mas, e espero que não, também os terá maus…
Quarto: por falar na Vanessa, esteve mal, quando criticou os colegas de falta de empenho ou de mentalidade vencedora e/ou espírito de sacrifício. Mesmo que fossem correctos os seus reparos não lhe cabia a si pronunciar-se a esse respeito. Existirá, por certo, quem tenha essas atribuições. Mais uma característica portuguesa: a de metermos a foice, em seara alheia.
Quinto: Esteve bem, por seu lado Francis Obikwelu, quando pediu desculpas aos portugueses pela sua prestação menos conseguida. Teve um dia/competição menos boa. Porém o investimento em si efectuado terá garantidamente sido integralmente recuperado e o saldo será seguramente positivo. Obrigado por tudo o que nos deste. Os únicos devedores somos nós portugueses, para com o Francis.
Sexto: Quando os apoios aos atletas são aquelas que alguma imprensa (que não se coibiu de furar o pacto de silêncio existente) fez eco, bolsas miseráveis e incompatíveis com o estatuto de alta competição que obrigam estes desportistas a desdobrarem-se em inúmeras actividades profissionais de modo a sobreviverem para poderem representar um país movido por um misto de recalcada e ressabiada inveja e por uma atroz ingratidão, então os atletas estão errados. No seu lugar, e ante as condições oferecidas, com a devida vénia, declinaria o convite para representar o país. O orgulho na representação do país não é alimento de substância e o coro de críticas dos abutres costumeiros não é de forma alguma compensado pela esmola que alguns eufemísticamente qualificam de bolsa…
Sétimo: Se os comentários e as desculpas foram inapropriadas tal é apenas reflexo de uma cultura de mediocridade, de uma escola que não forma, antes deforma, de um sistema que deveria educar os nossos atletas para a necessidade e inevitabilidade de falarem em público, perante as câmaras ou uma plateia. As frases foram infelizes? Foram-no, com toda a certeza! E, quando idênticas gaffes são cometidas por políticos experientes que fazem da oratória profissão, como é? Sem me esforçar muito, lembro-me assim de repente de uma dúzia de gaffes graves apenas nesta legislatura…
Enfim, já que ninguém lhes fez a devida honra, daqui envio um sentido agradecimento a todos os atletas que imbuídos de um patriótico altruísmo representaram a pátria em Pequim. Não esqueço, como é natural os atletas participantes nos paralímpicos, ainda que os seus feitos sejam de somenos importância. Se tomarmos em linha de conta as incomensuráveis barreiras com que as pessoas portadoras de deficiência se deparam em Portugal, qualquer deficiente é um potencial campeão paralímpico. Afinal, em todos os lugares e a todo o tempo a sua destreza, a sua determinação e o seu espírito de sacrifício são colocados à prova. Com ou sem bolsas, estes, todos os dias têm condições ímpares para treinar. Daí o slogan escolhido com tanta propriedade: “É nisto que somos bons!”
E somos mesmo!...
III - A crise
Começo, antes de tecer quaisquer outras considerações, por registar a impertinente teimosia da senhora. Afinal, ainda há bem pouco tempo um dos nossos bem-amados, perspicazes e instruídos governantes, (daqueles como só os Estados Unidos da América conseguem produzir, um verdadeiro entertainer de massas), qual gigante da stand-up comedy, anunciara aos quatro ventos, com ar sério e grave, o fim da crise. Ia jurar não terem passado ainda seis meses sobre tão sábias e prudentes palavras. Eis que esta semana, o mesmo protagonista veio decretar, com idêntica sabedoria, o fim dos tempos de prosperidade. Uma prosperidade tão etérea e veloz que os radares da Brigada de Trânsito foram incapazes de registar a velocidade a que passou pelo nosso território, razão pela qual, a prevaricadora não será autuada pela infracção correspondente. Testemunhas asseguram que terá passado a pelo menos Mach III…
Num registo mais sério, e deixando de parte as gaffes do nosso bem-amado Ministro da economia (que persiste em competir com o das obras públicas pelo título de gaffeiro-Mor – ainda que lhes inveje a ambos a capacidade de dizerem estas coisas sem se rirem), o terramoto financeiro que varreu os mercados financeiros globais, com epicentro nos Estados Unidos e de modo muito particular no subprime, vieram demonstrar algumas realidades curiosas.
Primeiro, ao contrário do que os partidários da visão liberal pretendem, a economia não pode ser assente, como o foi nas últimas décadas – especialmente no Pós-Segunda Guerra Mundial, com particular ênfase no período que mediou o epílogo da Guerra Fria e o rebentamento da bolha das dot.com – ou seja, toda a década de 90 – primeiro, e do subprime posteriormente), numa lógica de privatização dos lucros e nacionalização das perdas, sistema sobre o qual está, ao contrário do que sustentam o dr. Gonçalves (cujas reflexões domingueiras leio com igual devoção e fervor tal como se tratasse do sermão paroquial) de tantos outros iluminados arautos do neoliberalismo, alavancado o modelo económico que ora faliu.
É óbvio que as empresas têm de ter lucros. É óbvio que os que têm a capacidade de investir e aqueles que são suficientemente expeditos e/ou corajosos para arriscarem na ciência do ocultismo que tantas vezes traveste a economia têm de ver o seu arrojo/audácia recompensados.
Porém, como a falência estrondosa e total do capitalismo, depois de uma outra igualmente célebre nos idos de 1989/1991, demonstra, o mercado não pode ser fundado apenas na auto-regulação e na crença da sacrossanta capacidade e honestidade dos agentes envolvidos. Não deixa aliás de ser curiosa a hipocrisia ontológica do espírito liberal: politicamente conservadores, ainda que anacrónica e paradoxalmente economicamente anárquicos. Anárquicos, sim, pois que outro conceito se pode aplicar a uma doutrina que dispensa regras, supervisões, regulações, enfim, ingerências externas e que arroga para si o direito à auto-gestão, com os efeitos agora conhecidos, guardando para si os lucros, sempre que os há, e convocando o Estado, o mesmo Estado cujo papel regulador recusara terminantemente, a assumir as perdas e a salvar o dia, ante a ameaça (leia-se, chantagem) de colapso de todo o sistema financeiro.
Independentemente das consequências, os Estados não deveriam intervir injectando liquidez nos mercados. Deveriam isso sim, como o foram o bom exemplo de alguns países europeus, nacionalizar as empresas falidas, convocando os responsáveis, administradores e accionistas, para que assumam os erros cometidos.
O contribuinte, mais o americano que o europeu, é duplamente punido: penalizado porque os juros que lhe são cobrados servem para recompensar, ainda que excessivamente, o sistema capitalista e para gerarem valor aos investidores; molestado uma segunda vez, porque, falindo o sistema que alimentou todo um conjunto de capitalistas de estirpe moral duvidosa, terá que cobrir as perdas através dos impostos que o Estado tão diligentemente arrecadou.
No dia em que incumprir com os compromissos bancários assumidos, o banco punir-me-á, executando as hipotecas que “livremente” lhes cedi. Parece-me pois, lógico e de elementar justiça que, também os accionistas e administradores, sejam igualmente executados na exacta proporcionalidade e dimensão das suas responsabilidades. É, afinal, o mercado a funcionar.
A verdade, a verdadeira verdade, e aquela que ainda não nos contaram, (e que jamais nos contarão) e também por isso a urgência dos políticos em todos os países em rapidamente encontrar uma solução para resolver o assunto e passar à próxima crise é que as culpas não exclusivamente dos gananciosos capitalistas, dos tais agiotas a quem as forças daquela esquerda mais ortodoxa e marginal, prontamente apontaram o dedo. Os políticos, são igualmente responsáveis pelo actual estado de coisas: seja pela frouxa regulação, seja pela crescente desregulação, seja pela inexistência de mecanismos de controlo, seja pelo esconder da realidade aos cidadãos, seja inclusive pela criação de entidades reguladoras e fiscalizadoras legal e/ou organicamente incapazes e incompetentes no efectivo desempenho das funções atribuídas.
Ao contrário das balelas que os pretensos experts das ciências alegadamente exactas nos vendem (Teoria do Caos e as teses aristotélicas podem revelar-se excepcionalmente úteis na compreensão dos efeitos decorrentes deste contexto globalizado) a verdade é que a génese da crise é bem anterior ao rebentamento da bolha do subprime de 2007. Em bom rigor, a crise tem o seu início com as sucessivas deslocalizações de capitais, meios produtivos e grosso da produção para as economias emergentes da Ásia. Produzir mais, potenciando as economias de escala, produzindo a apenas uma fracção do custo de anteriormente, mesmo que vendendo a metade do preço, parecia ser o santo graal da gestão pós-moderna. As vendas e por conseguinte os lucros subiriam exponencialmente, num milagre sem fim. Em poucos anos a globalização do consumismo e, por directa consequência a multiplicação dos lucros e dos prémios de gestão e produtividade para os gestores, administradores e accionistas, prometia o triunfo final do capitalismo sobre todas as outras formas de organização económica. De desregulação em desregulação todos viveriam melhor (um punhado muito melhor que a esmagadora maioria de outros – mas o espírito inerente é justamente esse), competindo avidamente por lucros e lucros cada vez mais fabulosos.
Porém, algo falhou na sacrossanta fórmula liberal. Os especialistas da doutrina capitalista, pouco versados nas análises macro cósmicas, sempre enfadonhas e aborrecidas, porque incompreensíveis e indecifráveis aos seus cérebros programados para lidar num lógica reducionista com realidades concretas, quantificáveis e ordenáveis, incapazes de uma compreensão que ultrapassasse o concreto, o imediato e o micro cosmos circundante, falharam redondamente ao não intuírem a possibilidade destas acções poderem desencadear nos públicos consumidores reacções que não aquelas por si (pré-)determinadas. A tal black-box, fundada nos mecanismos de imprevisibilidade humana, ainda um reduto amplamente imperscrutável que teimosamente insiste em escapar à compreensão e controlo mesmo aos milionários gurus do marketing e da gestão.
Enfim, transferindo-se as linhas de produção e os capitais para as economias emergentes da Ásia, os génios, esqueceram-se que estavam também a transferir boa parte do potencial de consumo sem que, todavia, existisse por lá quem tivesse meios e/ou hábitos de consumo. As sociedades orientais, ainda que consumistas em potência, não dispõem de uma reserva de capital que lhes permita de um momento para o outro construir uma sociedade de consumo suficientemente ampla e disponível para absorver a oferta existente. Outro erro de avaliação prende-se com o facto de as culturas milenares orientais, mesmo já corrompidas pelo american-dream produzido pela indústria de Hollywood, serem ideologicamente menos permeáveis que as congéneres europeias aos apelos consumeiristas, donde se conclui que, os efeitos que agora sentimos nos mercados financeiros, são o resultado previsível e lógico de uma política económica cega, para os quais, eu próprio há muito, aqui, alertei.
Se no Ocidente o consumo dos cidadãos, principal motor da economia (a par com o investimento privado, mas essencialmente com o público), decresceu, por força da diminuição do rendimento disponível das famílias, por força da instabilidade dos rendimentos e da crescente precariedade dos vínculos laborais, por força da diminuição do optimismo das expectativas de longo prazo, e se essa quebra não foi compensada com, a Oriente, um crescimento, pelo menos idêntico ao capital consumista perdido no Ocidente, obviamente, aplicando a célebre teoria da manta curta, se se tapou no Oriente, destapou-se no Ocidente. A crise, não é pois, ao contrário do que pregam os capitalistas e os políticos, conjuntural. Ela é e será estrutural, uma mudança de paradigma económico centrada em questões geográficas, e corresponderá a um progressivo empobrecimento do mundo ocidental em favor das economias emergentes da Ásia. Os capitalistas, completamente desenraizados cultural, geográfica e afectivamente, imunes a qualquer tipo de vínculos identitários e/ou comunais, deslocalizar-se-ão para o continente asiático. É lá que escolheram investir o seu capital e é para lá que se vão mudar a menos que algum movimento inesperado possa interromper e inverter esse trajecto.
Em suma, e neste aspecto, a verdade nua e crua resume-se a: no actual quadro estrutural e macro-económico, um dos blocos sairá perdedor. Um deles seguramente perderá a corrida evolucionista! O ocidental ou o oriental, um deles terá de implodir, para que o outro possa prevalecer e prosperar. O fiel da balança, pende, presentemente, para Oriente…
Uma outra ideia a reter desta crise é o grau de fiabilidade e de consenso presente nas previsões dos especialistas em economia. Aparentemente a probabilidade de acertarem é correlatamente idêntica às dos astrólogos e meteorologistas (talvez seja maior no caso destes últimos que no dos primeiros).
Uma das mais conceituadas agências de rating, já este ano classificara com AAA (a graduação máxima) a dívida da entretanto falida seguradora AIG. As previsões Merryl Lynch ou do Goldman Sachs, também ambos apresentando uma débil saúde financeira, e de tantos outras instituições análogas, funcionavam quase como sentença nos mercados de capitais e, de um momento para o outro, estes bancos foram absorvidos por outros a fim de evitar a falência, ou viram-se na necessidade de correr a pedir a ajuda do Estado, cujas paternalistas ingerências dispensavam bem até há bem pouco tempo atrás. Perante este e muitos outros exemplos que aqui poderiam ser citados, a questão impõe-se: Quem investiu de autoridade estes pretensos gurus da economia, gestão e finança, afinal torpes charlatães incapazes de gerir as suas próprias “casas”? Quem avaliza os bitaites que estes pseudo-especialistas não se cansam de a toda a hora aspergir, sob a capa de sábias recomendações, em todas as direcções?
Enfim, temos uma crise, que os Estados Unidos, principais responsáveis, embora não únicos, criaram, se propõem resolver com a injecção de 700 mil milhões de dólares no sistema. A primeira dúvida surge em torno do número: porquê 700 e não 70 ou 7, ou 7000 ou 70000 mil milhões. Se é desconhecida a real dimensão do buraco, porque razão surge este número? E sendo o Estado americano aquele que é gerido de uma forma mais próxima como uma empresa, como explicar aos contribuintes (os accionistas da coisa) que a maior empresa do mundo vai adquirir um punhado de activos que, muito provavelmente, irão gerar um sério prejuízo, quiçá maior mesmo que o atol iraquiano?
A certeza porém que decorre das turbulências dos últimos meses, e que não cessarão num futuro próximo, é a de que o Homem estuda pouco a História e teima em não aprender com os erros do passado. A ver vamos se esta crise tem o condão de, de ora em diante, impor um modelo mais equilibrado, justo e prudente na movimentação e distribuição dos capitais.
Não estou muito confiante, mas….
IV – ERC vs MRS
Magistral é o único comentário que se pode fazer ao epílogo da análise de Marcelo Rebelo de Sousa no programa “As Escolhas de Marcelo”.
Confesso-me um admirador da capacidade comunicativa e de síntese do comentador, não obstante discordar dos seus juízos/leituras na maioria das ocasiões e, não apreciar por aí além o ex-político. Reconheço-lhe, todavia, uma inteligência e cultura ímpares e uma clareza de raciocínio e recursos comunicacionais pouco comuns no nosso país.
Tudo gira em torno de um parecer da Entidade Reguladora da Comunicação Social que qualifica o programa e o interveniente no âmbito do comentário político o que, por conseguinte, e aplicando-se o sistema de quotas, implica que o comentário passe a ter uma duração idêntica às “Notas Soltas” de António Vitorino. Naturalmente que, para os cavalheiros da ERC (de quem aguardo ainda a comunicação dos resultados finais dos concursos de contratação de pessoal a que concorri há mais de dois anos sem ter obtido a devida resposta – quiçá o meu perfil era e é incompatível com o perfil pretendido para um Agente da ERC) o facto de um ser político no activo e o outro não, nada conta para efeitos de cálculo das tais quotas.
A ser verdade a componente factual apresentada no texto de opinião assinado por Eduardo Cintra Torres e ontem saído no “Público” é grave, muito mesmo, a situação e terei de subscrever por inteiro a sua perspectiva. Não será pois, de estranhar, que Cintra Torres seja novamente incomodado pelos diligentes cães de guarda do establishment.
Registo ainda assim e em jeito de súmula, a inqualificável actuação da ERC, o artigo de Cintra Torres e o magistral comentário de Marcelo. Goste-se ou não, ensaiado ou não, Marcelo foi lapidar…